Entre Parênteses

A IMPORTÂNCIA DA AGENDA NA COMUNICAÇÃO COM O SETOR PÚBLICO

Publicado em 24/04/2018 por Umbelino Lôbo

Não há setor da economia livre da intervenção estatal. A afirmação pode até soar como uma obviedade, mas trata-se de preceito central para o desenvolvimento do planejamento estratégico de empresas e outros entes da sociedade civil organizada. 
 
Estudo divulgado pela Consultoria Empresarial McKinsey & Company¹ ilustra tal ponto. De acordo com os autores, que ouviram diversas empresas sediadas na União Europeia, o impacto da ação governamental é variável a depender do setor econômico. Em setores ligados à indústria de forma geral o efeito pode ser de até 30% do EBITDA – lucros sem juros, impostos, depreciação e amortização. Considerando áreas mais reguladas o efeito é ainda mais significativo. Em instituições financeiras a soma pode ultrapassar 50% e, de acordo com uma concessionária de serviços públicos, o montante contínuo dos efeitos regulatórios durante a vigência do contrato foi de mais de 1,5 bilhão de euros. 
 
Certamente que o impacto em referência pode ser dirimido ou, até mesmo, revertido em efeitos positivos paras os diversos setores da economia e para a sociedade como um todo. Nesse sentido, os diversos entes privados têm tanto o direito, quanto o dever de contribuir com informações técnicas claras e consistentes para a melhor condução do processo decisório público. 
 
Para tanto, e objetivando a construção de um canal efetivo de comunicação com os diversos órgãos do Poder Público, é essencial que o setor privado e a sociedade civil estabeleçam agendas políticas prioritárias alinhadas com o cenário político-econômico e inseridas nos respectivos planejamentos estratégicos. A análise em comento também deve abarcar a efetiva identificação de temas prioritários com potencial impacto para os diversos entes. 
 
Nessa linha, considerando que as diversas temáticas ou issues possuem ciclos de vida específicos, o ideal é que a atuação se dê no início, quando as posições ainda não são definitivas. Para melhor elucidar importa mencionar especificamente as fases componentes dos referidos ciclos²:  
 
* Potencial – a temática ainda não está na agenda de discussões;
* Emergente – o assunto, motivado por algum acontecimento externo, começa a ser debatido;
* Avançado – o tema já é discutido formalmente por grupos identificados e com cobertura da mídia; e,
* Normativo – o issue já é normatizado através de legislação específica. 
 
Complementarmente, vale citar a visão destacada por Gilberto Galan, segundo o qual “O timing perfeito para as empresas neutralizarem um issue é antes que ele se torne politizado, que as emoções alcancem alta temperatura e que a mídia seja envolvida” ³. 
 
Desse modo, essa análise e organização devem permitir a antecipação de temas e o efetivo planejamento pelos entes privados e da sociedade civil, seja para uma atuação direta junto aos órgãos públicos pertinentes, ou para a efetiva participação nas discussões organizadas por entidades de classe que os representem. 
 
A opção pela atuação direta ou através de entidades representativas, não obstante o elevado grau de legitimidade decorrente da representação setorial, depende da política interna da empresa ou ente privado e, até mesmo, da verificação de consenso setorial. Independente da estratégia de atuação adotada, a elaboração de uma agenda consistente, objetivando a efetiva comunicação e contribuição com o processo formulação de políticas públicas é fundamental. 
 
Especificamente para 2018, com a proximidade das eleições e seus impactos inerentes sobre o processo decisório público, tais conceitos ganham ainda mais importância. Do ponto de vista do Poder Executivo, importante considerar a oportunidade de apresentação, aos níveis técnicos permanentes, de propostas de médio e longo prazo, com foco na provável transição entre governos. Já em relação ao Poder Legislativo, central atuar de forma pontual e estratégica, considerando a possibilidade de avanço de pautas populistas.  
 
¹Musters, Reinier. Parekh, Ellora-Jule. Ramkumar, Surya. McKinsey Quartely November 2013; Organizing the government-affairs function for impact.
²Meng, Max. Early Identification Aids Issues Management. Public Relations Journal.
³Galan, Gilberto. Relações Governamentais & Lobby; Aprendendo a Fazer.
 
 
 
Felipe Oppelt - Diretor Executivo da Umbelino Lôbo Assessoria e Consultoria

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